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O estado de consciência dos mortos

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Esequias Soares


Todas as pessoas morrem ou vão morrer um dia, exceto as que estiverem vivas por ocasião da vinda de Cristo. Essa realidade é consequência do pecado desde a Queda do Éden (Rm 5.12). É nos velórios, lendo 1 Tessalonicenses 4.16, que nos vem a reflexão sobre os que morreram em Cristo e os perdidos, quando nos deparamos com a convicção de que a morte não é o fim de nossa esperança. O Senhor Jesus disse que haverá ressurreição vindoura para todos os mortos (Jo 5.28). Mas, surgem as perguntas: o que acontece com os mortos até o dia da ressurreição? Qual a condição deles antes e depois da morte e ressurreição de Jesus? Os dados bíblicos não nos mostram tudo quanto gostaríamos sobre a existência entre a morte e a ressurreição, mas vejamos o que o texto bíblico diz que possibilita o desenvolvimento de uma posição teológica.

O estado de consciência dos mortos diz respeito à condição de todas as pessoas entre a morte e a ressurreição. Essa parte da teologia se chama estado intermediário. O termo não é bíblico, mas é apropriado para o tema, que é bíblico. Uma visão sobre a interpretação do termo hebraico-grego, she’ôl-hadēs, à luz do contexto, é de grande ajuda para a compreensão dessa parte da teologia.

O termo she’ôl-hadēs pode lançar luz sobre o assunto. Sheol aparece 65 vezes no Antigo Testamento. Segundo os dicionários e léxicos de hebraico, trata-se de um termo de significado vago e indefinido, mas todos afirmam ser “o lugar invisível dos mortos” ou “habitação dos mortos” (Sl 89.48; Is 14.9). A Septuaginta traduz o termo 60 vezes por Hades. O fato de Sheol e sepultura serem lugares profundos e invisíveis aos olhos humanos justifica, às vezes, as diversas traduções do termo, oscilando entre “inferno”, “sepultura”, “sepulcro”, “abismo”, “morte”, “além”, “cova” e palavras correlatas. O termo sheol, em si mesmo, não é conclusivo no Antigo Testamento.

O chamado “sono da alma” ou “extinção da alma” se baseia numa interpretação que torna uma citação bíblica metafórica em literal, como nas palavras do Senhor Jesus: “Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou para despertá-lo” (Jo 11.11); em Lucas: “E, tendo dito isto, adormeceu” (At 7.60, ARC); e em Paulo: “tendo Davi, no seu tempo, servido conforme a vontade de Deus, dormiu, e foi posto junto de seus pais” (At 13.36, ARC). Isso se repete em 1 Coríntios 15.6,18,20,51 e em 1 Tessalonicenses 4.13-15. Os termos “sono” e “dormir” são metáforas e se referem à morte física, Jesus mesmo esclarece isso: “Disse-lhes claramente: Lázaro está morto” (Jo 11.14). O contexto do martírio de Estêvão não deixa dúvida de que o “adormeceu” está falando da sua morte. Esses termos são metáforas que indicam a morte física do corpo, e não faz sentido aplicar isso à alma.

Além disso, os debates acontecem porque o Antigo Testamento fala de ímpios no Sheol, mas também menciona justos nesse lugar. “No inferno serão lançados os perversos, todas as nações que se esquecem de Deus” (Sl 9.17), Aqui é Sheol, em hebraico, e Hades, em grego, na Septuaginta. Mas, também o Salmo 16.10 diz: “Pois não abandonarás a minha alma ao Sheol” (TB). O sepultamento de Davi é fato histórico e literal, e ao mesmo tempo esse texto é profético, tendo se cumprido no sepultamento e ressurreição de Jesus: “Porque não deixarás a minha alma no Hades” (At 2.27, ARC). O patriarca Jacó faz menção de descer com dor e tristeza ao Sheol: “Pois com choro hei de descer para meu filho ao Sheol” (Gn 37.35, TB). Jacó não pensava em sepultura, mas num lugar onde pudesse encontrar seu filho, porque pensava que José tinha sido devorado por uma fera (Gn 37.33).

Não há unanimidade quanto à presença de justos no Sheol, como se vê no caso de Stanley M. Horton, que acha que Jacó e seu filho José “estavam debaixo do juízo divino por algum motivo… É provável que Jacó tenha considerado o she’ol um lugar de castigo”.¹ Mas, Horton não diz nada sobre a profecia do Salmo 16.10, sobre Davi e Cristo no Hades, citado no discurso de Pedro (At 2.27).

Para alguns, o sentido original de Sheol era de sepultura e, com o tempo, passou a significar inferno. Nenhuma dessas interpretações deve ser descartada. O Antigo Testamento, porém, revela a presença de Deus no Sheol (Jó 26.6; Sl 139.8; Pv 15.11). O Novo Dicionário da Bíblia de John Davis afirma: “Os espíritos de seu povo e as suas condições naquela habitação estavam sob vigilância de seu olhar. Essa doutrina inclui a grande bênção de Deus para com o Seu povo, depois da morte, desfrutando Sua presença e Seu constante amor e, ao mesmo tempo, a miséria dos ímpios”.²

Dependendo de como o Sheol é interpretado em cada passagem, influenciará a visão sobre a consciência dos mortos. O texto bíblico base mais usado para explicar o estado intermediário é a passagem do rico e Lázaro (Lc 16.19-31) somada ao texto do juízo final (Ap 20.11-15). Os adventistas, porém, creem no sono da alma. A confissão de fé dos adventistas do sétimo dia afirma: “Uma vez que a morte é um sono, os mortos deverão permanecer em estado de inconsciência, na sepultura, até à ressurreição, quando os sepulcros (hades) entregarão os mortos (Ap 20.13)” – Nisto Cremos). Com base na referência de Apocalipse, os adventistas interpretam que depois da morte as pessoas ficam inconscientes até o momento da ressurreição.

Com base na tradição rabínica, a interpretação mais aceitável é que o “seio de Abraão”, lugar para onde os anjos levaram Lázaro na sua morte (Lc 19.22), é visto como um lugar no próprio Hades. Antes do advento do Messias, tanto os justos como os injustos iam para o mesmo lugar quando morriam, Sheol ou Hades, no qual havia uma divisão. Um compartimento era o lugar dos justos, que os rabinos denominavam “Seio de Abraão”, “Jardim do Éden” e o “Trono de Glória”. Desses três nomes, o “Seio de Abraão” era o mais usado na teologia judaica da época e esse Paraíso fazia parte do Hades. O she’ôl-hadēs, afirma Alfred Edersheim, é “o lugar dos espíritos desencarnados antes do juízo final” e acrescenta: “consiste em duas divisões: uma de consolação, com todos os fiéis reunidos juntos a Abraão como seu pai; a outra em tormento de fogo”. Ele diz ainda que esse pensamento representa “as ideias correntes naquele tempo entre os judeus”. Se isso era parte do imaginário popular, o Senhor Jesus não as contradisse. Por sua vez, encontramos no Dicionário Teológico Beacon o seguinte: “Lucas 16.23 sugere a divisão do sheol em hades e o paraíso”.³

Com os dados obtidos nessas considerações apresentadas e com a ajuda do Novo Testamento, podemos afirmar que o Sheol é um lugar profundo e era o destino de todas as almas, dos justos e injustos. Antes da morte de Cristo, havia uma divisória para separar os maus dos bons nesse mundo invisível dos mortos. Agora, os salvos vão para o paraíso ou “terceiro céu” (2 Co 12.2; Ap 6.9, 10), onde aguardam a ressurreição do corpo, enquanto os incrédulos aguardarão no Hades, em estado consciente, a ressurreição do corpo para o juízo final (Ap 20.11-14).

Quando o Senhor Jesus morreu, desceu às partes mais baixas da terra e “levou cativo o cativeiro” (Ef 4.8); “morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão” (1Pe 3.18,19), de modo que, agora, o Paraíso ou o Seio de Abraão localiza-se no céu. No entanto, antes da ressurreição de Cristo, ainda estava no Sheol, no seio da terra. Os que não concordam com os justos no Sheol, aguardando a vinda do Messias, o Seu primeiro advento, acreditam que eles iam direto para o céu, como hoje os cristãos na dispensação da graça. É uma intepretação possível, mas deixa muitas pontas soltas.

Diante de tudo que foi dito, concluímos que o Hades não é, ainda, o inferno propriamente dito, mas o estágio intermediário dos mortos. Trata-se de uma prisão temporária até que venha o dia do juízo. Os condenados estão lá conscientes e em tormentos, sabendo, perfeitamente, porque estão naquele lugar (Lc 16.23), aguardando o juízo final (Ap 20.13, 14). E os salvos, na sua morte, estão com Cristo, aguardando a ressureição do corpo por ocasião do Arrebatamento da Igreja.

Notas
¹ HORTON, Stanley M. Teologia sistemática – uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1996, 620.
² DAVIS, John. Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Editora Hagnos, 2005, p. 598.
³TAYLOR, Richard S. Diccionario Teológico Beacon. Kansas City, MO, USA: Casa Nazarena de Publicaciones, 1995, p. 637.

Esequias Soares é pastor da Assembleia de Deus em Jundiaí (SP), presidente do Conselho Deliberativo da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) e da Comissão Apologética da CGADB; graduado em Hebraico pela Universidade de São Paulo e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie; autor de diversos livros como O pentecostalismo brasileiro, O verdadeiro pentecostalismo e Aprendendo grego no Novo Testamento.

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