Filipe Abreu de Oliveira
Dos inúmeros lidares que a igreja local hodierna enfrenta e retroalimenta, um exaustante se dá nas tão concorridas reuniões de agenda, onde não poucas disputas por data se estendem por algumas horas. Ao longo do ano, ouvimos quão sufocantes os diversos eventos são a líderes, liderados e famílias. Reuniões de diretorias, obreiros e assembleias gerais traçam planos para reduzir a quantidade dos eventos no ano. Sugestionam algumas tratativas para sanar esse problema administrativo e eclesiástico, tais como: a redução de duração de uma semana para poucos dias; ajuntamento de todos os departamentos da igreja local em uma única data etc.
Ao analisar o seguinte cenário na igreja local, como um médico com diversos pacientes apresentando os mesmos sintomas, tento esboçar aqui a condição que afeta as igrejas locais. A denomino de “Síndrome do Ativismo”. Vemos essa situação na casa de Maria e Marta (Lc 10.40). A “Síndrome do Ativismo” pode gerar e desenvolver outra condição, cuja nomenclatura sugerida é “Síndrome do Pão e Circo”. Assim como uma gripe ou condição de resfriado não tratados podem evoluir secreção e desencadear uma pneumonia grave, a Síndrome do Ativismo, se não tratada, pode agravar para a Síndrome do Pão e Circo na igreja, levando-a a se esfriar na fé e tornar-se uma comunidade de entretenimento, perdendo assim o seu propósito.
Em todas as crises, devemos sempre nos voltar para o nosso Manual de Regra de Fé e Prática, a Palavra de Deus. Não há problema em fazermos eventos. O problema é a agenda lotada e sufocante, que é o reflexo de uma igreja que só prioriza realizar eventos. Quanto mais eventos, mais trabalho, mais demanda, mais tempo demandado para a realização, mais pessoas envolvidas, mais trabalho braçal e menos tempo para pensar sobre a importância do evento para o Reino de Deus.
Há uma tendência de as pessoas pensarem que se não fizerem eventos não estão trabalhando bem. Trabalhar mais não significa necessariamente trabalhar certo. A cultura criada é que uma igreja sempre tem de ter muitas atividades para ser funcional.
O nosso Mestre nos alertou sobre as prioridades (Lc 10.41). A prioridade da igreja local não é ser uma agência de eventos. Essa síndrome precisa de dinheiro para se sustentar, e o dinheiro precisa vir de alguma forma. A igreja então muda a rota: ao invés de gerar alimento espiritual gratuito para todos, passa a cozinhar alimentos físicos, arrecadando materiais da membresia como doação para depois cobrar a refeição vendida a fim de gerar fundos. Para quê? Para conseguir atender à demanda do evento. É o cenário que vemos na perícope lucana sobre Marta, Maria e Jesus. Mais serviços geram mais demandas, que diminuem o tempo para as prioridades e, consequentemente, para ouvir e aprender a Palavra de Deus (Lc 10.42).
A Síndrome do Pão e Circo é uma estratégia romana de entretenimento. O povo faminto recebia comida ao assistir os brutais assassinatos no Coliseu, que servia de Circo (metonímia para entretenimento). O que notamos nas agendas e reuniões de agendas nas igrejas locais é quase que uma imagem da Síndrome do Pão e Circo, gerada pela Síndrome do Ativismo. A igreja local gera a demanda, que são eventos, trabalhos; e esses eventos, que precisam de tempo dos membros, reduz o tempo de qualidade estudando a Palavra de Deus e em família. Tudo tem um preço, e esse preço é também o dinheiro para custear o evento. Logo, a igreja precisa vender almoço e fazer cantina.
Não poucas vezes, vi igrejas locais cancelarem a Escola Dominical para fazer quentinhas e vender nesse mesmo horário a fim de custear a sua festividade. Afinal, o que é isso? É o mesmo cenário de Marta, achando que a melhor parte era o ativismo, e recebeu a instrução do Mestre de que a melhor parte foi a de Maria, que parou para ouvi-lO.
A multiplicação de eventos em nossas agendas tendem a nos tornar menos pensantes, menos ouvintes e menos praticantes da Palavra de Deus. O ensino tem a missão de alertar a igreja local sobre esse perigo, o perigo da síndrome. Qual seria o medicamento, então? Ter mais tempo para ouvir e estudar a Palavra de Deus, e não como teólogo meramente teórico, mas como um deveras hermeneuta da Palavra de Deus, que aplica-a em sua vida, família e comunidade de fé.
Quando a igreja se voltar para uma maior presença nos cultos de ensino, de Escola Dominical, de leitura devocional da Bíblia e das Lições Bíblicas em casa com sua família, reduzindo drasticamente o excesso de eventos, os oficiais da igreja retornarão à academia bíblica (os seminários teológicos, a Escola Dominical e os cultos de ensino) e terão mais subsídios em seus sermões.
Quando a igreja se abarca mais no ensino genuíno da Palavra de Deus, ela sabe que 15 ou 20 minutos de sermão são muito pouco, pois a fome espiritual é grande, e perceberá que precisa de mais tempo ouvindo Jesus falar, como Maria fez. Quando esse cenário se culminar, aquela igreja não precisará importar preletores e sermoneiros externos ao seu convívio, pois terá os discípulos do Mestre bem instruídos para servir à membresia.
A reflexão é extensa, e a solução é o retorno à Sola Scriptura (“Somente a Escritura”).
Filipe Abreu de Oliveira é presbítero na Assembleia de Deus em Parada Angélica (ADPA), Rio de Janeiro (RJ); geólogo, coordenador e monitor do Seminário EETAD, e professor da FAECAD.


