Jonas José
Todo texto precisa do seu contexto para que não se torne um pretexto para erro de interpretação. No caso de Jeremias 42.17 e seu contexto próximo, há o registro de que houve um pedido, por parte dos líderes de Judá, para que o profeta Jeremias buscasse uma resposta divina sobre uma decisão que deveriam tomar, diante da iminente invasão de Nabucodonosor. Esses príncipes, sob a liderança de Joanã, tinham, e, um primeiro momento, deixado claro que, independentemente de qual fosse a resposta de Deus, a obedeceriam: “Seja ela boa ou má, à voz do Senhor, nosso Deus, a quem te enviamos, obedeceremos…” (Jr 42.6). Mais à frente, é perceptível que pediram a direção de Deus sem a intenção de segui-la. Não queriam a direção divina, mas a aprovação divina para que cumprissem seus próprios desejos.
Dez dias depois, a Palavra de Deus veio a Jeremias, orientando-o a que dissesse que não pusessem sua confiança no Egito e não deveriam ir para lá para tentar escapar dos caldeus. Nesse contexto, Deus afirmou que todos que fossem para o Egito seriam mortos à espada, à fome e à peste (Jr 42.17). Quando Jeremias acabou de anunciar a sentença divina, os líderes daquele grupo simplesmente não obedeceram e colocaram em dúvida a integridade do profeta. Eles foram ao Egito, desobedecendo a uma ordem divina. Na verdade, o que estava em jogo não era apenas o Egito em si, mas a confiança do povo de Deus, que não deveria estar no Egito, mas no Senhor dos Exércitos (Is 30.1,2; 31.1).
O Egito foi um dos impérios que fizeram parte da história do povo judeu, assim como a Assíria, a Babilônia e os Medo-Persas. O próprio Jesus foi ao Egito com sua família para escapar de Herodes (Os 11.1; Mt 2.13-15). A nação egípcia foi o local onde Deus levou José para ser governador (Gn 45.8) e o país em que os hebreus se tornaram escravos até que Deus enviou Moisés para tirá-los de lá (At 7.34-36). O contexto, portanto, de Jeremias 42.17 é de tensão, de pós-guerra. Ao desobedecerem à ordem de Deus, os judeus foram corrigidos e o Egito se tornou alvo do juízo divino (Jr 44; 46; 2 Rs 25.23-26).
Portanto, os juízos divinos tiveram validade para aquele contexto histórico específico, não apenas para o Egito, mas para muitos outros países, que hoje desfrutam de uma outra realidade. O Egito é hoje um país republicano, com mais de 100 milhões de habitantes e abriga milhares de cristãos, apesar de sua realidade no âmbito religioso é de grande parcela da população muçulmana. Pensar que, por conta de uma palavra divina em um contexto espefíco, essa sentença teria validade para sempre, seria imaginar que hoje ninguém poderia viver na Turquia, região onde era a Babilônia, ou na antiga Assíria, cujo território hoje faz parte do Iraque. Há que se diferenciar o que é recomendação temporária e o que é mandamento permanente.
Alexandria, por exemplo, localizada no Egito, era uma das três cidades mais importantes do mundo nos primeiros séculos, ao lado de Roma e Antioquia. Foi nesta cidade que a formação da cultura cristã foi moldada, antes mesmo da Europa e da América do Norte. Lembremos de Pais da Igreja como Clemente, Orígenes, Tertuliano, Cirilo e o próprio Agostinho, que vieram todos do continente africano. As contribuições nas áreas da educação, da interpretação bíblica, dos dogmas, da formação espiritual, da filosofia e da literatura começaram no continente africano.
Finalmente, e não menos importante, vale ressaltar o fato de que vivemos no tempo da graça. Nesta dispensação, judeus e gentios, brasileiros ou egípcios, precisam entregar suas vidas a Jesus, o único que pode nos levar a Deus (Jo 14.6). Salvos pela graça, mediante a fé (Ef 2.8), estejamos morando no Brasil, no Egito ou em qualquer outro país do mundo, somos habitação do Espírito Santo (1Co 3.16), somos justificados pela fé (Rm 5.1) e ansiamos pelo iminente retorno de nosso Senhor Jesus Cristo (Ap 22.17).
Jonas José é pastor da AD em Vida Nova Pacaembu, Presidente Prudente (SP), doutor em Teologia pela PUC (PR) e pós-doutor em Teologia pela Universidade de Stellenbosch, na África do Sul.

