Kaeles da Costa Santana
Vivemos em uma época marcada por inúmeras ideologias, falsas doutrinas e interpretações distorcidas das Escrituras. Diante desse cenário, o cristão é chamado por Deus a preservar fielmente a verdade do evangelho. A sã doutrina não é apenas um conjunto de ensinamentos teológicos, mas a revelação divina que conduz o homem à salvação, à santificação e ao crescimento espiritual. A Igreja de Cristo é a única instituição na Terra que preserva e defende a verdade de Deus diante dos enganos e males produzidos pelas heresias. Em um mundo onde a verdade é constantemente relativizada, Deus confiou à Sua Igreja a responsabilidade de guardar e proclamar a mensagem genuína do evangelho. Ao escrever a Timóteo, o apóstolo Paulo enfatiza a necessidade de conservar o modelo das sãs palavras recebidas, demonstrando que a fidelidade doutrinária é indispensável para a saúde espiritual da Igreja.
O que é a sã doutrina?
A palavra “sã” transmite a ideia de algo saudável, sem contaminação. “Doutrina” são princípios que, tendo como base as Sagradas Escrituras, orientam o nosso relacionamento com Deus, com a igreja e com os nossos semelhantes. Logo, a expressão “sã doutrina” refere-se ao ensino bíblico puro (sem acréscimos), íntegro (sem distorções ou omissões) e saudável, fundamentado na Palavra de Deus. Paulo declarou: “Tu, porém, fala o que convém à sã doutrina” (Tt 2.1). Desde os tempos apostólicos, a Igreja enfrentou o desafio das falsas doutrinas e o antídoto contra as heresias sempre foi o ensino fiel da Palavra de Deus. Quando a Igreja permanece fundamentada nas Escrituras, ela possui discernimento para identificar e rejeitar todo ensino contrário ao Evangelho de Cristo. Por isso, a preservação da sã doutrina não é apenas uma questão teológica, mas uma necessidade espiritual para a proteção da fé cristã.
A responsabilidade do cristão em conservar a doutrina
A conservação da sã doutrina não é uma responsabilidade exclusiva dos pastores ou líderes, mas de todos os crentes. Judas exorta a Igreja a “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos” (Jd v.3). Como bem enfatiza a Bíblia de Estudo Pentecostal em nota, os fiéis em Cristo têm o solene encargo de “batalhar” pela fé que Deus entregou aos apóstolos e demais santos (Fp 1.27; 1Tm 1.18-19; 1Tm 6.12). A palavra “batalhar” (gr. epagonizomai) significa literalmente “contender”, “estar sob muita pressão” ou “travar uma luta”. Devemos esforçar-nos ao máximo na defesa da Palavra de Deus e da fé, mesmo que isso nos seja custoso e agonizante. Batalhar pela fé também é tomar posição firme contra aqueles que, dentro da igreja visível, negam a autoridade da Bíblia ou distorcem a fé original anunciada por Cristo e pelos apóstolos. Ademais, trata-se de pregar essa fé como verdade redentora a todos os povos. “Fé”, aqui, significa o evangelho proclamado por Cristo e os apóstolos. É a verdade estabelecida e inalterável, comunicada pelo Espírito Santo e incorporada no Novo Testamento. A expressão “Aos santos”, de que fala Paulo a Timóteo, refere-se a todos os crentes.
Conservar a doutrina envolve permanecer firme nos ensinamentos bíblicos, rejeitar heresias e falsos ensinos, transmitir a verdade às futuras gerações e viver de acordo com os princípios da Palavra de Deus. Paulo advertiu: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nestas coisas” (1Tm 4.16). Cerca de sete anos antes de escrever esta epístola, Paulo havia advertido os presbíteros de Éfeso de que falsos mestres procurariam distorcer a verdadeira mensagem de Cristo (At 20.29-30). Quando escreveu a Timóteo, essa ameaça já era uma realidade. Por isso, Paulo exorta o jovem pastor a confrontar os falsos ensinos com coragem e firmeza. Timóteo não deveria ceder, nem negociar a verdade do evangelho. Pelo contrário, deveria combater o erro mediante a proclamação da fé original recebida de Cristo e dos apóstolos (2Tm 1.13-14). Qualquer ensino que se afaste da verdade bíblica deve ser rejeitado pela Igreja. O cristão que negligencia a doutrina corre o risco de ser levado por ensinos enganosos.
Os perigos do abandono da sã doutrina
A Bíblia alerta que, nos últimos tempos, muitos abandonariam a verdade. Paulo escreveu: “Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2Tm 4.3-4). Esse afastamento ocorre quando as pessoas preferem ouvir mensagens agradáveis aos seus desejos em vez da verdade que transforma.
Na história da igreja sempre houve aqueles que não amam a sã doutrina e, na medida que o fim se aproxima, a situação nesse sentido tornar-se-á pior (2Tm 3.1-5; 1Tm 4.1). Nos revela a Bíblia que muitos professarão serem cristãos, frequentarão as igrejas e mostrarão que servem a Deus, mas não aceitarão a fé apostólica original, nem as exigências bíblicas ordenando que o crente se separe da injustiça. A autêntica pregação bíblica de um homem de Deus não mais será aceita por muitas igrejas. Os desviados da verdade desejarão sermões que simplesmente apresentem um evangelho menos exigente (2Tm 2.18; 3.7,8). Já não aceitarão trechos da Palavra de Deus que tratam de arrependimento, pecado, perdição, necessidade da santidade e de separação do mundo. Como diz o versículo citado: “Amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências”.
Esses falsos crentes não quererão pastores segundo os padrões da Palavra de Deus (1Tm 3.1-10), mas buscarão os que toleram seus desejos egoístas e mundanos. Escolherão pregadores com dons de oratória, com a habilidade de divertir o povo e com uma mensagem que lhes assegure que é possível ser crente e continuar vivendo segundo a carne.
O Espírito Santo adverte a todos que permanecerem fiéis a Deus e se submeterem à Sua Palavra. Devemos sempre ser leais ao que o “Espírito diz as igrejas”, ao evangelho e aos fiéis ministros de Deus que o proclamam. Assim, poderemos ter certeza de estreita comunhão com Cristo e de tempos de refrigério pela presença do Senhor (At 3.19,20).
A Palavra de Deus deve ser nosso supremo guia quanto à verdade e à norma de vida. Devemos ter a Palavra de Deus, dada pelo Espírito Santo, como nosso guia único e suficiente no julgamento daquilo que cremos e fazemos. Quando a Igreja abandona a doutrina bíblica, surgem confusão espiritual, relativização do pecado, perda da identidade cristã, enfraquecimento da comunhão com Deus. Por essa razão, o cristão deve permanecer vigilante, guardando o evangelho, que lhe foi confiado, e resistindo às pressões que tentam substituir a verdade bíblica por conceitos humanos.
Como preservar a sã doutrina?
A resposta é simples e direta. Podemos preservar a Sã Doutrina:
a) Permanecendo na Palavra de Deus. Ela é a fonte da verdade divinamente inspirada e proveitosa para ensinar (2Tm 3.16). Vale destacar que o estudo constante das Escrituras fortalece o crente contra os erros doutrinários.
b) Dependendo do Espírito Santo. Ele guia o crente em toda a verdade (Jo 16.13). Sem a direção do Espírito Santo, o conhecimento pode se tornar apenas intelectual.
c) Seguindo o exemplo dos apóstolos. A Igreja Primitiva tinha como característica a perseverança na doutrina (At 2.42). O modelo apostólico continua sendo o padrão para a Igreja contemporânea.
d) Guardando o depósito da fé. Paulo instruiu Timóteo: “Guarda o depósito que te foi confiado” (1Tm 6.20); “Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1.14).
e) Defendendo a Verdade Confiada à Igreja. Guardar a sã doutrina envolve também defendê-la. A verdade recebida deve ser protegida e transmitida sem alterações. O cristão deve proteger o evangelho dos ataques das falsas doutrinas e ajudar os outros a permanecerem firmes na verdade. Essa responsabilidade é fundamental para a preservação da fé e para a edificação espiritual do povo de Deus. Quem guarda a verdade bíblica protege não apenas a si mesmo, mas também àqueles que estão sob sua influência e cuidado espiritual.
Devemos conservar fielmente essas verdades com fé e amor em Cristo, sem jamais abandoná-las ou comprometê-las, mesmo diante de sofrimento, rejeição, humilhação ou perseguição.
Uma verdadeira igreja não é definida por tamanho, influência ou popularidade, mas por sua fidelidade à sã doutrina das Escrituras.
Os frutos da fidelidade doutrinária
Quando a igreja conserva a sã doutrina, ela experimenta diversos benefícios espirituais. Podemos citar o crescimento espiritual (“Antes, crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor”, 2Pe 3.18), a estabilidade na fé (“Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina”, Ef 4.14), a unidade da igreja (“Até que todos cheguemos à unidade da fé”, Ef 4.13) e o testemunho eficaz (“Resplandecei como astros no mundo”, Fp 2.15). A fidelidade à verdade fortalece a igreja e glorifica a Deus.
Conclusão
A conservação da sã doutrina é uma necessidade urgente para a Igreja de Cristo. Em tempos de relativismo espiritual e multiplicação de falsos ensinos, o cristão deve permanecer firme na Palavra, guardando o depósito da fé recebido do Senhor. O apóstolo Paulo nos deixa uma exortação: “Conserva o modelo das sãs palavras que de mim tens ouvido, na fé e no amor que há em Cristo Jesus. Guarda o bom depósito pelo Espírito Santo que habita em nós” (2Tm 1.13-14). Que cada cristão assuma o compromisso de conhecer, viver, defender e transmitir a sã doutrina, para que a Igreja permaneça fiel ao evangelho até a Volta de Cristo. A Igreja continuará sendo coluna e firmeza da verdade (1Tm 3.15) enquanto permanecer alicerçada na Palavra de Deus, rejeitando as heresias e proclamando fielmente o evangelho de Jesus Cristo. “Retém firme a fiel palavra, que é conforme a doutrina, para que seja poderoso, tanto para admoestar com a sã doutrina como para convencer os contradizentes” (Tt 1.9).
Referências
STAMPS, D. C. (Ed.). Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2006.
RENOVATO, Elinaldo. Colossenses: a perseverança da igreja na palavra nestes dias difíceis e trabalhosos. Rio de Janeiro: CPAD, 3º Trimestre de 2004.
ANDRADE, Claudionor de. As verdades Centrais da Fé Cristã. Rio de Janeiro: CPAD, 4º Trimestre de 2006.
CABRAL, Elienai. A Igreja e a sua Missão. Rio de Janeiro: CPAD, 1º Trimestre de 2007.
Kaeles da Costa Santana é diácono, superintendente de Escola Dominical, dirigente de congregação na Assembleia de Deus em Colinas (MA), graduado em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e bacharelando em Teologia pelo Instituto Teológico Doksa.


