Esdras Costa Bentho
A geografia do cristianismo moderno não segue mais os eixos eurocêntricos que ditaram a teologia nos últimos séculos. O centro de gravidade da fé deslocou-se do Norte transatlântico para a África subsaariana, a América Latina e expressivas regiões da Ásia e da Oceania. Não se trata apenas de uma transição demográfica, mas de uma profunda guinada hermenêutica e espiritual na qual o pentecostalismo desponta como força motriz. Compreender esse avanço exige analisar o conceito de Sul Global, verificar suas estatísticas, reconhecer seus teólogos e demarcar suas ênfases doutrinárias frente ao modelo do Norte Ocidental.
Conceito de Sul Global: ruptura geopolítica e epistêmica
O conceito de Sul Global transcende o alinhamento puramente cartográfico. Embora a maioria de suas nações esteja nos trópicos e no hemisfério meridional, a categoria possui natureza socioeconômica, histórica e pós-colonial. Superando a antiga divisão tripartite da Guerra Fria e a pecha passiva de “Terceiro Mundo”, o Sul Global consolidou-se como espaço de agência histórica, resiliência e produção autônoma de pensamento.
Na teologia, essa transição desfaz a hegemonia do Norte como polo emissor exclusivo de formulações abstratas. Conforme observou o historiador Andrew Walls, o cristianismo não avança em linha estática, mas sofre declínios regionais compensados por vigorosas expansões periféricas. Philip Jenkins reforça que o Sul representa o “próximo cristianismo”, distinguido por uma fidelidade sobrenaturalista às Escrituras. Aqui, o pentecostalismo opera de forma encarnada: o Espírito Santo intervém onde a realidade clama por cura, providência e redenção.
Cartografia e demografia pentecostal
Reunindo mais de 130 países emergentes, o Sul Global estrutura-se em quatro grandes frentes:
América Latina e Caribe: Berço de sólida tradição avivada, destacando-se Brasil, Guatemala, El Salvador e Chile, onde o pentecostalismo tornou-se cultura popular transformadora.
África Subsaariana: Epicentro da fé cristã no século XXI, com potências demográficas como Nigéria e Gana, combinando igrejas históricas com megacomunidades carismáticas e igrejas autóctones (AICs).
Ásia e Extremo Oriente: Crescimento sob contextos desafiadores e multirreligiosos, incluindo Coreia do Sul, Filipinas, Indonésia e as ativas redes de igrejas nos lares na China continental.
Oceania: Nações insulares como Papua-Nova Guiné e Fiji, onde a conversão restaura laços sociais e comunitários.
Dados do Center for the Study of Global Christianity, do Gordon-Conwell Theological Seminary, evidenciam a magnitude desse avanço. De 2,63 bilhões de cristãos no planeta, os crentes renovados superam 680 milhões, projetando atingir 1 bilhão até 2050. O Brasil lidera esse contingente com mais de 33% de sua população evangélica — da qual mais de 70% é pentecostal, tendo a Assembleia de Deus como eixo basilar. Na África, a Redeemed Christian Church of God e a Winners’ Chapel, na Nigéria, mobilizam milhões em vigílias de oração contínua.
Teólogos e pensadores do Sul Global
Se no século XX a reflexão do Sul se manifestou primordialmente na oralidade, no testemunho, nos hinos e na proclamação evangelística, as últimas décadas viram nascer uma consistente produção acadêmica. A seguir, vou apenas descrever o conteúdo dessa produção e seus autores, bem como as diferenças doutrinárias entre o Sul Global e o Norte Ocidental, e, ao final, tecerei as minhas considerações.
Bernardo Campos (Peru): Formulou a Pneumatologia de Base. Demonstra que o avivamento latino-americano é autóctone e brotou da apropriação direta das Escrituras pelas massas vulneráveis, articulando carisma, santidade e justiça.
Carmelo Álvarez (Porto Rico): Destaca o pentecostalismo como um protestantismo do Espírito que resgatou os marginalizados, atribuindo-lhes dignidade sacerdotal.
Juan Sepúlveda (Chile): Analisa a inculturação do Evangelho na cultura popular chilena a partir de 1909, enfatizando que a teologia local se expressa no testemunho cúltico e na oração fervorosa.
J. Kwabena Asamoah-Gyadu (Gana): Principal expoente acadêmico na África, elucida como o Espírito Santo atua como poder libertador contra opressões espirituais, conferindo autoridade existencial aos fiéis.
Mercy Amba Oduyoye e Cephas Omenyo (África Ocidental): Sistematizam o protagonismo das mulheres nos dons proféticos, no pastoreio e na expansão eclesial.
Wonsuk Ma (Coreia do Sul): Exegeta do Antigo Testamento que vincula o batismo pentecostal (At 1.8) à capacitação para a missão global oriunda dos países do Sul.
Amos Yong (Malásia/EUA): Teólogo de renome mundial que formula leituras de Atos 2 para dialogar com a ciência, a teologia da deficiência e o testemunho em contextos inter-religiosos.
Diferenças doutrinárias: Sul Global versus Norte Ocidental
A práxis teológica do Sul Global não reproduz a dogmática do Norte. Enquanto o modelo norte-americano e europeu erigiu-se em tensão com o Iluminismo, o liberalismo e o empirismo cartesiano, o Sul moldou sua fé diante da dor, da miséria e da batalha espiritual real:
Epistemologia e Ponto de Partida: O Norte parte de silogismos, questionando a possibilidade racional dos milagres. O Sul fundamenta-se na experiência viva e comunitária do Ressuscitado; Deus não é hipótese dedutiva, mas auxílio imediato na angústia diária.
Hermenêutica Bíblica: Em contraste com os ceticismos histórico-críticos, o Sul pratica uma fusão pneumática de horizontes. O livro de Atos não é relíquia antiga, mas narrativa normativa em pleno cumprimento nos vilarejos e periferias urbanas.
Pneumatologia Funcional: No Norte clássico, consolidou-se a ênfase dogmática na glossolalia como evidência física inicial. O Sul preserva as línguas, mas compreende o Espírito como poder transformador que traz cura, liberta de prisões ocultistas e restaura a integridade humana.
Soteriologia Integral: Superando o reducionismo forense individualista, a salvação no Sul abrange a redenção da alma, o livramento demoníaco, a saúde física e o amparo material. A teologia clássica faz a crítica devida para que isso não degenere na famigerada “teologia da prosperidade”, que corrompe a cruz por ambição.
Eclesiologia e Culto: Enquanto templos do Norte se acomodaram a modelos burocráticos empresariais, a comunidade pentecostal do Sul é família da fé. O templo é acolhimento ao marginalizado e celebração corporal onde o choro, o louvor e as palmas integram a adoração total.
Escatologia Ativa: O advento iminente de Cristo (Maranata) consola frente às dores sociais e impele um ardor evangelístico que envia obreiros aos campos mais difíceis da Terra.
Desafios contemporâneos e fidelidade bíblica
A vitalidade pentecostal do Sul enfrenta perigos que requerem rigoroso discernimento doutrinário (1Ts 5.21). A proliferação do neopentecostalismo sincrético, o uso de amuletos, o mercantilismo da fé e o autoritarismo de lideranças personalistas, por exemplo, ameaçam o rebanho.
Diante disso, a vocação histórica das Assembleias de Deus e do pentecostalismo clássico reside na intransigente guarda das Escrituras, na centralidade da Cruz, na busca pela santificação e na dependência do Espírito. O Sul Global é o presente incontestável da Igreja. Resta aos servos de Deus manter o bom depósito, pregando a Palavra com autoridade e unção até o glorioso regresso do Rei Jesus.
Referências
GORDON-CONWELL THEOLOGICAL SEMINARY. Center for the Study of Global Christianity. Disponível em: <https://www.gordonconwell.edu/center-for-global-christianity/>. Acesso em 22 set. 2026JENKINS, Philip. The Next Christendom: The Coming of Global Christianity. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2011.
WALLS, Andrew F. The Missionary Movement in Christian History. Maryknoll: Orbis Books, 1996.
Esdras Costa Bentho é doutor e mestre em Teologia pela PUC-RJ; pedagogo, coordenador da graduação de Teologia da Faecad; e autor de Hermenêutica Fácil e Descomplicada (CPAD).


